As motivações para o estudo da História
Por que estudar história? Esta é uma pergunta que já ouvi formulada por
muitas pessoas é sobre a qual já foram escritos artigos. Desde criança
eu adoro história. A importância de estudar história para mim era o
prazer de conhecer. Perante a pergunta sobre por que eu estudava tanto
história, respondia acerca da importância de conhecer o passado para não
cometer os mesmos erros no futuro e coisas do gênero; mas não era nada
disso o que me interessava, eu estudava porque simplesmente gostava.
Laura de Mello e Souza (2012) aponta para a diversão como motivador do
estudo da história, fazendo menção ao conselho dado por Marc Bloch a
seu neto, de que "pelo menos, servia para divertir" (idem). Quando ao professor Ricardo da Costa (2008:46) seus alunos do ensino fundamental lhe perguntavam para que serve a história, ele devolvia outra pergunta: "Por que vocês gostam tanto dos dinossauros?" Assim como Costa, "eles não sabiam a resposta, apenas diziam que gostavam dos dinossauros, que compravam aqueles bonecos e brincavam com eles. Claro, quando a gente gosta de algo, não pergunta porquê gosta, apenas gosta." (idem)
Mas o conhecimento do passado tem outra função além da diversão: ele faz parte da memória dos povos; e esse
conhecimento é parte essencial da identidade coletiva. Mello e Souza continua dizendo: "A
História é fundamental para o pleno exercício da cidadania. Se
conhecermos nosso passado, remoto e recente, teremos melhores condições
de refletir sobre nosso destino coletivo e de tomar decisões." (idem) O conhecimento da História nos ensina a questionar coisas tais como
desigualdades sociais, relações de poder, guerras entre nações, a
própria existência
das nações, etc. Estas questões podem ser melhor compreendidas se
olharmos para
o desenvolvimento histórico pelo qual se chegou a esse estado de
coisas.
De fato, a história nos ajuda a compreender nosso presente a partir do conhecimento do passado, pois a situação presente é decorrência do acontecido no passado. O regime político, a situação social e econômica e até a cultura e moral da época e lugar em que a gente vive, são produto de um desenvolvimento histórico. As coisas são o que são hoje pelo que tem se tornado ao longo do tempo. Mas essa compreensão não se trata exatamente de "aprender com os erros do passado", pois a história não se repete do mesmo modo. Pode-se encontrar elementos similares entre uma época e outra, assim como entre as diferentes lugares geográficos e sociedades, mas, para identificar uns com outros, deveria haver uma coincidência perfeita em todas as variáveis, o que resulta impossível. A História tem lugar no devir dos acontecimentos da humanidade, sendo que estes ocorrem na singularidade das pessoas, das sociedades e das épocas, e suas variáveis não podem ser controladas e reproduzidas como em um laboratório.
Para o historiador Diego Armus, a história não funciona como "uma
espécie de GPS em relação ao presente." (RODRIGUES, 2023) Assim, a
história, mais do que nos "prever" o futuro por analogia com eventos
similares, nos ajuda a compreender os fatos presentes entendendo o
processo histórico do qual derivaram. A história "não vai nos dar todas
as respostas, mas pode, ao menos, nos ajudar a compreender melhor o
comportamento humano." (MULLET, 2021)
Deste modo, por construir a visão que temos do passado, a História também funciona como uma arma
política, pois o a construção do relato histórico justifica o detentor
do poder, fazendo julgamentos valorativos sobre fatos e figuras do
passado (cf. AMARAL, 2014). De um modo extremo, no romance 1984, de
George Orwell, o qual trata de uma sociedade distópica em que o que deve
ser sabido é fortemente controlado por um estado totalitário, há um
slogan do partido dominante que reza: "Quem controla o passado controla o
futuro; quem controla o presente, controla o passado". (ORWELL, 2003:244) Percebe-se aqui que o relato histórico não é inocente ou neutro; ele é produzido em um determinado contexto social, político e cultural, por uma pessoa com sua ideologia. Não que quem escreve história tenha intenções explícitas ou conscientes de manipular a história para fins políticos, mas quem escreve é um sujeito que, como a palavra indica, está "sujeito" à sua própria visão de mundo. Por conseguinte, é necessário olhar também para os relatos históricos criticamente, sem considerá-los uma verdade revelada.
A história, portanto, tem sua importância como arma de conhecimento que nos dá o poder da liberdade. Saber a origem e antecedentes das estruturas que nos rodeiam nos libertam da aceitação das coisas como "naturais" e permite que as questionemos. Mas, independentemente desta importância, o melhor incentivo para o estudo de qualquer matéria é descobrir a sua beleza e o prazer dessa descoberta.
Ir para o índice temático do blog.
Referências:
AMARAL, Roberta do Valle do. Estudar história pra quê? Jornal do Brasil, 09 mar. 2014. Acervo. Disponível em: https://www.jb.com.br/sociedade-aberta/noticias/2014/03/07/estudar-historia-pra-que.html. Acesso em: 11 jan. 2024.
COSTA, Ricardo da. Para que serve a História? Para nada... In: SINAIS - Revista Eletrônica. Ciências Sociais. Vitória: CCHN, UFES, Edição n.03, v.1, Junho. 2008. pp.43-70.
MULLET, Nilton. Por que é preciso estudar História? Café História, 5 jul. 2021. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/por-que-ainda-e-preciso-estudar-historia/. Acesso em: 10 jan. 2024.
ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
RODRIGUES, Karine. Diego Armus: "História não dá lições, nem define roteiro detalhado para evitar erros". Fiocruz, 12 dez. 2023. Notícias. Disponível em: https://www.coc.fiocruz.br/index.php/pt/todas-as-noticias/2577-diego-armus-historia-nao-da-licoes-nem-define-roteiro-detalhado-para-evitar-erros.html. Acesso em: 10 jan. 2024.
SOUZA, Laura de Mello e. Por que estudar história? A Folha do Gragoatá, 9 abr. 2012. Disponível em: http://afolhadogragoata.blogspot.com.br/2012/04/por-que-estudar-historia-laura-de-mello_09.html. Acesso em: 11 jan. 2024.
Comentários
Postar um comentário