América Latina: Sobre o conceito

O conceito de América Latina surge no século XIX, após as independências dos países ibero-americanos. Antes daquela época, utilizavam-se os conceitos de América ou América Espanhola, com o Brasil excluído desta última classificação, pois era considerado uma entidade a parte por não ser de colonização espanhola. A exclusão do Brasil se devia não só a causas culturais, como a língua, mas principalmente por causas políticas, já que, enquanto na América Espanhola se firmava uma ideia republicana de governo, o Brasil era uma monarquia com vínculos familiares com a casa reinante em Portugal, seu antigo colonizador, o que gerava sérias desconfianças no resto das nações do continente.

 

Antes da chegada de Cristóvão Colombo ao continente, os diversos povos que o habitavam não tinham um nome comum para a sua designação. Cada povo conhecia o território em que vivia sem uma clara noção do resto do continente, e cada um deles dava seu nome à terra que habitava e conhecia: Anahuac para os astecas, Tahuantisuyu para os incas, Pindorama para os tupis-guaranis, etc.

A partir da chegada dos europeus, no século XV, e até o século XIX, os colonizadores deram várias denominações à terra que descobriram. Em princípio, foram as Índias, devido ao erro de acreditar haver chegado ao leste da Ásia. Naquela época, alguns começariam a chamá-lo América, atribuindo a Américo Vespúcio a descoberta de que, na verdade, se tratava de uma nova terra. A partir do século XVIII, as ex-colônias da América do Norte recentemente independizadas da Grã-Bretanha adotaram o nome Estados Unidos da América, e as elites das colônias espanholas afirmavam sua identidade de "americanos" em contraposição aos espanhóis da metrópole. Assim, enquanto nos Estados Unidos adotou-se o nome América para se referir estritamente ao próprio país, no sul falava-se em América Espanhola ou Hispano-América, estando o Brasil fora dessa unidade, pois este seria a América Portuguesa. E é em meados do século XIX que surge a ideia de uma América Latina.

Não há um consenso sobre quem haveria utilizado o termo América Latina pela primeira vez. O intelectual e político francês Michel Chevalier (1806-1869), na sua obra Lettres sur l'Amérique du Nord, de 1836, refere-se a uma América Latina, católica e mestiça, contraposta a uma América Anglo-saxã, protestante e "branca", transferindo para a América a dicotomia europeia entre as civilizações de raiz latina ou romana e as de raiz germânica. Esta contraposição refletia o debate estabelecido no velho continente acerca das identidades nacionais e suas origens étnico-raciais, como consequência da ascensão dos nacionalismos. Segundo esta visão, haveria uma Europa anglo-saxã, uma latina, uma eslava, etc., e a confrontação entre estas "civilizações" era transplantada aos territórios que foram colonizados pelas mesmas. Deste modo, haveria uma América Anglo-saxã, protestante, com suas raízes na Europa anglo-germânica, e uma América Latina, católica, com raízes na Península Ibérica e na França.

Chevalier era um diplomata a serviço de Napoleão III da França. O soberano tinha propósitos imperialistas na Europa e no mundo, e a França apresentava-se como a liderança da "civilização latina", quer dizer, dos povos de origem latina, incluídos Espanha e Portugal e os territórios colonizados por estes. Portanto, as Américas espanhola e portuguesa, por serem latinas, estariam dentro do conjunto de países que deveriam ser tutelados pela França. Tal pretensão viu-se materializada na conquista francesa do México entre 1862 e 1867. Embora Chevalier tenha apresentado o conceito de América Latina na sua publicação de 1836, o termo começou a ser amplamente utilizado na Europa na década de 1860 com a concretização dos planos imperiais de Napoleão III. Neste sentido, a expressão América Latina iniciou-se com um propósito imperialista francês, mas antes de sua popularização na Europa, já começou a ser utilizado por hispano-americanos.

O escritor colombiano José María Torres Caicedo (1830-1889), antes da popularização do termo na Europa, escreveu, em 1856, na revista El Correo de Ultramar, publicada em Paris e distribuída entre o público hispano-americano, o poema Las dos Américas (As duas Américas), em que declara: "La raza de la América latina,/ Al frente tiene la sajona raza." (A raça da América latina,/ À sua frente tem a saxã raça). Torres Caicedo tinha uma postura muito crítica perante o imperialismo, sobretudo o britânico; mas, a partir da invasão francesa ao México, torna-se crítico também do imperialismo francês. O autor, que até então usava os termos América ou América Espanhola, começou a usar a expressão América Latina a partir de 1856. Posteriormente, este termo se popularizou como uma reação ao expansionismo da América Anglo-saxã, ou seja, os Estados Unidos, que haviam conquistado grandes extensões de território que antes pertenciam ao México e estavam ampliando sua influência na América Central. Frente à expansão norte-americana, foi amplamente aceito o termo América Latina, contrapondo a "latinidade" da América Espanhola ao imperialismo anglo-saxão.

Embora Chevalier e Torres Caicedo se destaquem como os primeiros a utilizar o termo América Latina, outros autores também são mencionados no uso da expressão. O ensaísta chileno Francisco Bilbao (1823-1865) também se referiu à América Latina e a uma "raça latino-americana" em uma conferência em Paris em 1856 (SANTOS JUNIOR, 2020, p. 393), no mesmo ano do poema de Torres Caicedo. Mas Bilbao abandonaria o termo depois de que este foi apropriado por Napoleão III para justificar a invasão ao México.

No mesmo ano de 1856, o jornalista bonapartista francês Félix Belly (1816-1886) sentaria as bases intelectuais para a futura invasão, fazendo uma defesa da "América Latina" frente à expansão da "América Anglo-saxã", e responsabilizando a herança ibérica pelo atraso e a barbárie das sociedades americanas colonizadas por espanhóis e portugueses. Assim sendo, essa América "latina" era passível de ser "civilizada" mediante a intervenção europeia, quer dizer, francesa, e salvá-la do atraso e da anarquia, e da consequente dominação pela América Anglo-saxã.

Deste modo, o conceito de América Latina surgiu, em meados do século XIX, com um propósito imperialista por parte da França e, ao mesmo tempo, anti-imperialista por parte dos hispano-americanos que opuseram o termo frente ao expansionismo norte-americano.

O termo ressurgiu com mais força no final do século XIX como resposta ao crescente expansionismo norte-americano face à guerra de independência de Cuba e Porto Rico, últimas colônias espanholas na América, e a construção do Canal do Panamá, acontecimentos que ampliaram a intervenção norte-americana na região. Alguns anos antes destes eventos, o escritor e político cubano José Martí (1853-1895) publicou, em 1891, o artigo Nuestra América, em que propõe uma ideia de Pátria que transcende as fronteiras dos estados americanos. Esta "pátria americana" é a que o autor chama de Nossa América, ou seja, a América Espanhola, contraposta à América Anglo-saxã (cf. SANTOS, 2010; MARTÍ, 1891). Posteriormente, José Enrique Rodó publica, em 1900, seu ensaio Ariel, uma mensagem à juventude latino-americana em que exalta as virtudes da América Latina, usando como metáforas os personagens da peça A Tempestade, de William Shakespeare, em que Ariel representa os valores da latinidade como o bom gosto e o uso da arte para enriquecimento espiritual, em oposição ao selvagem Calibã, que representa o utilitarismo da cultura norte-americana e deixa de lado os valores humanos.

No século XX, o termo ganhou força como referência para a região dos países de línguas de origem latina no continente americano. Inclusive, após a Segunda Guerra Mundial, em ocasião da criação da Organização das Nações Unidas, foi criada, em 1948, a CEPAL - Comissão Econômica para a América Latina e Caribe, como uma das cinco comissões regionais da ONU, reconhecendo, assim, o nome de América Latina de maneira oficial.

Apesar de reconhecido amplamente e hoje consagrado, o nome América Latina é questionado por não representar a realidade e amplitude cultural da região. Fundamentalmente, tanto o nome América quanto o adjetivo Latina são de origem europeia. Na década de 1920, o líder político peruano Víctor Raúl Haya de la Torre sugeriu o termo Indo-América para o projeto que seria a base de sua doutrina revolucionária, aplicada através da APRA - Alianza Popular Revolucionaria Americana, incluindo, assim a matriz cultural indígena do continente, embora a expressão indígena também seja questionada por fazer referência às Índias, a região que os europeus procuravam e, erroneamente, acreditaram achá-la no continente americano. Além do mais, o termo homogeneíza os povos originários do continente e nega as diferenças específicas entre eles. Mais recentemente, movimentos dos povos originários propuseram o nome Abya Yala, o qual significa "terra madura", "terra viva" ou "terra em florescimento" na língua do povo kuna, originário do norte da Colômbia e que atualmente vive no Panamá. Esse é o nome pelo qual os kunas se referem à sua terra. Não se pode afirmar que os kunas representem todos os povos originários do continente, mas a expressão tem sido usada em sentido político desde a II Cumbre Continental de los Pueblos y Nacionalidades Indígenas de Abya Yala, realizada em Quito, em 2004, como uma alternativa ao colonialismo do nome América.

Pese às críticas e questionamentos cabíveis, o nome América Latina continua consagrado como o que identifica a região. Tem sido usado ocasionalmente o termo Ibero-América ou América Ibérica para os países de colonização espanhola e portuguesa, praticamente a América Latina toda com exceção do Haiti. É, também, amplamente utilizada a expressão América Latina e Caribe para abranger aqueles países caribenhos de colonização inglesa e neerlandesa, com os quais existe uma proximidade geográfica e aspectos em comum nas suas realidades socioeconômicas e políticas. A expressão é reconhecida nos nomes de organizações como o GRULAC - Group of Latin America and the Caribbean, um dos cinco grupos regionais da ONU; e a CELAC - Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos, grupo de países que visa a uma integração regional e à discussão de problemas comuns entre eles.

O Brasil participa dos âmbitos políticos latino-americanos e é reconhecido como parte da América Latina. Todavia, no aspecto cultural, a identificação dos brasileiros com a América Latina é muito tênue, tendendo a identificar a América Latina com a América Hispânica. Em parte, isto é explicado porque a ideia de uma América Latina gestou-se principalmente nos países hispanos, onde os processos emancipatórios foram significativamente diferentes dos da América Portuguesa, e por haver existido desconfianças históricas mútuas entre o Brasil e a América Hispânica, além das diferenças culturais e linguísticas. (cf. GUIMARÃES, 2015) Em síntese, a relação do Brasil com o resto da América Latina é um assunto que merece um tópico a parte, o qual deixo pendente para uma futura postagem.

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Fontes:

AMÉRICA LATINA, mais que um nome! Unicamp, LEHG - Laboratório de Epistemologia, História e Geografia, 26-abr-2023. Disponível em: <https://www.ige.unicamp.br/lehg/america-latina-mais-que-um-nome/>, acesso em 25-out-2024.

AVELAR, Ideler. Ariel (1900), de José Enrique Rodó. Medium, 26-set-2018. Disponível em: <https://idelberavelar.medium.com/ariel-1900-de-jos%C3%A9-enrique-rod%C3%B3-702a48c72244>, acesso em 31-out-2024.

FERRÚS ANTÓN, Beatriz. El Correo de Ultramar. Parte literaria e Ilustrada Reunidas como repositorio de literatura de viajes. Algunos ejemplos españoles. Bibliographica, v. 6, n. 2, Cidade do México, jul/dez-2023. Disponível em: <https://www.scielo.org.mx/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2594-178X2023000200159&lng=pt&nrm=iso>, acesso em 28-out-2024.

GUIMARÃES, Thiago. Brasileiro despreza identidade latina, mas quer liderança regional, aponta pesquisa. BBC, Notícias, 21-dez-2015. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/12/151217_brasil_latinos_tg>, acesso em 30-out-2024.

MARTÍ, José. Nuestra América. Publicado em La Revista Ilustrada de Nueva York, EUA, 10-jan-1891, e em El Partido Liberal, México, 30-jan-1891. Disponível em: <https://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/osal/osal27/14Marti.pdf>, acesso em 28-out-2024.

O QUE É A CELAC, grupo que reúne a América Latina e Caribe. G1, Mundo, 23-jan-2023. Disponível em: <https://g1.globo.com/mundo/noticia/2023/01/23/o-que-e-a-celac-grupo-que-reune-america-latina-e-caribe.ghtml> , acesso em 30-out-2024

RODÓ, José Enrique. Ariel. Abracadabra, 2017, e-book.

SANTOS, Lucas Machado dos. José Martí e o projeto identitário de Nuestra América: Uma análise da construção de identidade americana. ANPUH - Associação Nacional de História, XIV Encontro Regional da ANPUH-Rio Memória e Patrimônio, Rio de Janeiro, 19 a 23-jul-2010. Disponível em: <http://www.encontro2010.rj.anpuh.org/resources/anais/8/1276735978_ARQUIVO_TrabalhoAnpuh.pdf>, acesso em 28-out-2024.

SANTOS JUNIOR, Valdir Donizete dos. A América Latina em disputa: História e historiografia de uma polêmica. Revista Eletrônica da ANPHLAC, n. 29, ago/dez-2020, p. 369-408. Disponível em: <https://revista.anphlac.org.br/anphlac/article/download/3916/3339>, acesso em 27-out-2024.


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